A não ser que você viva numa caverna, você sabe que The Last of Us Pt. 2 é a aguardadíssima continuação de The Last of Us, de 2013, que é tido por muitos (por mim, inclusive) como o melhor jogo de 2013, um dos melhores da década,e um dos melhores como um todo. E com toda razão. Por conta disso, quando foi anunciado em 2016, TLOU2 naturalmente foi cercado por um nível altíssimo de expectativa.
Os problemas começaram em outubro de 2019. A data planejada para o lançamento, inicialmente fevereiro de 2020, foi adiada para maio. Em abril de 2020, outro adiamento; dessa vez por tempo indefinido, por conta da pandemia global de COVID-19. Então a grande bomba: no final de abril, vazamentos disponibilizaram na internet várias cutscenes, trechos de gameplay e detalhes do enredo. Revelações como a morte brutal de Joel (protagonista do primeiro game); a presença de um personagem transgênero; o game dividido entre duas perspectivas diferentes, uma do ponto de vista de Ellie (personagem central na trama do primeiro game) e outra de Abby, a pessoa responsável pela morte de Joel. E junto com esses vazamentos, veio a enxurrada de ódio gratuito ao jogo: ameaças de morte aos roteiristas, ao diretor, à atriz que interpreta Abby, mensagens preconceituosas e transfóbicas, e tudo que pode existir de mais baixo. Foi a comunidade gamer mostrando a sua cara feia, sem a menor vergonha. Depois desse episódio lamentável, uma nova data de lançamento, junho de 2020, e a promessa por parte da Naughty Dog, de que todo o material vazado, embora mostrasse pontos importantes, estava fora de contexto e apenas arranhava a superfície da narrativa.
Eu devo dizer que eu vi os tais spoilers, mas confiando na Naughty Dog (o histórico dos caras passa total credibilidade), quis jogar pra poder formar a minha opinião, me baseando na obra completa e não apenas em trechos dela. E definitivamente, eu duvido que algum jogo me cause o mesmo impacto, que desperte a mesma gama de sentimentos que TLOU2. Poucas vezes, e isso vale pra filmes, games, discos, uma sequência foi TÃO melhor que o original. Tudo em TLOU2 é maior e melhor. Do ponto de vista técnico, é impecável: as mecânicas de combate, stealth, crafting e skills são incríveis; o nível de detalhamento no ambiente chega a ser assustador; a captura de movimentos, as animações e as expressões faciais chegaram em um nível que nunca imaginei ver em um game.
Mas o jogo brilha mesmo nos aspectos não mecânicos: no enredo, na atuação de todo o elenco, e na trilha sonora. Quem reclamou que a história do jogo é ruim, fraca, preguiçosa ou qualquer coisa do gênero, devia rever os próprios conceitos. TLOU2 entregou a trama mais densa, visceral e emocionante que eu já vi num game. Todos os personagens cumprem o seu papel, e alguns definitivamente roubaram a cena. A temática toda gira em torno do eterno ciclo de violência: Joel matou o pai de Abby pra salvar a Ellie no primeiro game; Abby mata Joel pra vingar o pai; Ellie parte numa caçada brutal buscando se vingar da Abby pela morte do Joel. Não existe preto e branco, o cinza é o tom predominante: dependendo da perspectiva pela qual você encara os acontecimentos, todos podem ser heróis ou vilões na história. E o peso disso é acentuado ainda mais pela atuação do elenco, e eu destaco Ashley Johnson e Troy Baker (retornando como Ellie e Joel, respectivamente), Laura Bailey (Abby), Stephen Chang (Jesse) e Ian Alexander (Lev). Inclusive, Lev é o personagem que fez com que os imbecis preconceituosos perdessem a linha. Parte de um grupo extremamente religioso, Lev (ainda sob o nome de Lily) tem seu futuro dentro do grupo definido: ser esposa de um dos anciões. Em vez de aceitar esse destino, Lev raspa a cabeça, como todos os homens do grupo, adota o novo nome e foge da ilha com a irmã Yara, até cruzar o caminho de Abby. Esse encontro é um dos melhores arcos da história do game, e todo o ódio por conta disso é uma das coisas mais estúpidas que eu já vi.
Obviamente ter ótimos personagens e enredo é basicamente tudo que é preciso, mas a amarração de tudo isso não existiria sem a música, e de novo Gustavo Santaolalla (compositor argentino que ganhou o Oscar dois anos consecutivos, pelas trilhas de Brokeback Mountain e Babel) foi perfeito. As composições elevam completamente os sentimentos que o jogo te proporciona: medo, tristeza, raiva, angústia, desespero, sem contar as versões de Future Days do Pearl Jam e Take on Me do A-ha, que casaram perfeitamente como o jogo. É sem sombra de dúvidas uma das melhores trilhas sonoras de todos os games que já joguei (talvez empate com a de Red Dead Redemption 2).
TLOU2 definitivamente é um game divisivo, e consigo entender a posição de quem não gostou do rumo corajoso que a história tomou. Mas nunca vou entender e nem aceitar todas as opiniões baseadas em puro preconceito (de muita gente que nem jogou, inclusive). A Naughty Dog criou uma experiência única, que com certeza vai entrar pra história. Joguei até conseguir a Platina, e já Apertei Start de novo pra sofrer no modo punitivo.

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